- Precisamos mudar as coisas, Sábio! - Dizia a menina de longas tranças ruivas.
- Sim! E você sabe disso, então nos ajude! - O menino resmungou com um tom de agitação entre os dentes.
O sábio deu meia volta, pôs o óculos e indicou que as crianças se sentassem.
Os dias eram difíceis. Os impostos aumentavam a cada semana, as pessoas matavam e morriam por pouca coisa, a cidade estava um caos. O rei já não parecia se preocupar com a província, que há muito esquecida agora também já não tinha mais o que o fizesse orgulhar-se. As crianças não frequentavam escolas ou campos de treinamento, nenhuma delas. Os adultos roubavam para salvar seus filhos e suas vidas, assim acabavam apenas por perdê-las. O pobre sábio já sabia de todos aqueles fatos e estava realmente tocado com a ação daquelas duas crianças em sua frente. Mas se encontrava agora em um dilema.
- E se as coisas devessem ser assim? - Indagou o sábio.
Olhinhos arregalados o contemplavam com certo receio e hesitação.
- Existe uma flor, no alto da colina ao sul. Seu nome é Utopia. Muitos viajantes e aventureiros já se arriscaram a pegá-la, porém nenhum deles foi bem sucedido.
As crianças ouviam atentamente ao sábio que prosseguia em sua história...
- Um dos cavalheiros que tentou, caiu no Desejo que fica bem na saída da floresta contrária ao caminho para a capital. Desejo é um lago encantado, feito de areia movediça, que atrai quem por ali passa e soterra quem ali fica.
As crianças arregalaram os olhos, mas logo voltaram a expressão de curiosidade.
- Um outro, porém, foi um pouco mais longe. Mas infelizmente se perdeu na Floresta dos Sonhos. Que fica logo após do lago Desejo. A Floresta dos Sonhos é conhecida por fazer pessoas realizarem seus sonhos.
As crianças sorriram.
- Mas não se enganem! Tudo não passa de mentira! As pessoas não realizam de fato seus sonhos, elas apenas permanecem em um sono pesado até que achem que realizaram seus sonhos e então... - O sábio calou-se, vendo a expressão de horror no rosto das crianças.
Então continuou.
- Um pouco após, um aventureiro decidiu regressar, quando viu o tamanho do Vale do Sofrimento. E um que resolveu passar por lá, perdeu sua sanidade no Caminho da Força-de-Vontade. Dizem que esses dois lugares são os mais complicados de se passar à caminho da colina ao sul.
As crianças já começavam a pensar melhor.
- Um que foi foi além, deparou-se com a Senhorita Indagação, que o fez três perguntas para o deixar atravessar a ponte da Ilusão. Mas ela, crianças, é apenas uma farsante. Faz perguntas fáceis de responder, mas requer respostas elaboradamente mentirosas! E a ponte da Ilusão é quase um labirinto... O moço caiu.
A menina roía as unhas enquanto o garoto coçava o braço, nervoso.
- Um dia, um nobre e astuto aventureiro conseguiu chegar até a colina ao sul.
Os olhos das crianças brilharam mais uma vez.
- Assim como vocês, ele queria trazer a paz à sua cidade natal. E assim, achou a flor Utopia. Porém, alguns anos depois, resolveu que levaria de volta a flor ao seu local. Pois não podia suportar os efeitos colaterais da planta que tranquilizou e pacificou tão perfeitamente sua cidadezinha.
Inconformadas, as crianças perguntaram em uníssono:
- Mas como assim efeitos colaterais?
O sábio sorriu.
- Vocês são novos demais para entender, mas quando se trata de paz absoluta ou felizes para sempre, trata-se de nada mais. Trata-se do fim. As coisas começaram a ficar tão iguais e tão normais que todos deixaram a cidade em busca de algo que faltará a todos. Pois este é o destino da flor Utopia, estar sozinha em um lugar silencioso e solitário.
As crianças fizeram uma expressão azeda.
- Mas vocês podem ir até lá e trazê-la para cá. Digo porém que, até que se chegue à Utopia terão que enfrentar seus medos e desejos, terão que enfrentar seu destino e aceitar o que vier. Mas em não mais que alguns anos, cansaram da vida que um dia tanto desejaram.
Satisfeitas as crianças voltaram para casa. Contaram aos seus pais o que o mago havia dito, deitaram em suas camas e refletiram.
O mago, por outro lado, passou a noite acordado. Pensando se não teria feito melhor se nada tivesse inventado e aos meninos tivesse deixado a dádiva da esperança.
Poxa,como você ainda não foi descoberta?!!! Escreves tão bem,me emocionei aqui,durante a leitura achei um pouco triste,mas é a pura realidade. Nada melhor do que a esperança,parabéns,e um xêro querida Alice.
ResponderExcluirObrigada, querida :)
ExcluirProvavelmente estarei enviando contos para antologias este ano :) vamos ver no que vai dar!
Já está na hora de começar a correr atrás dos sonhos né? :)
Obrigada por passar aqui, Hadassa!
beijos!
Alegria é encontrar boas histórias na internet. Faço das palavras da Hadassa as minhas! Parabens pelo dom!
ResponderExcluirMe faz uma visita? http://mardeletras2010.blogspot.com.br/2013/12/tudo-que-e-solido.html
Nossa tia Alice! =O vc podia enviar algum conto pra uma dessas antologias olha > http://www.andross.com.br/
ResponderExcluir*-* adorei esse! Parabéns pelo talento =)