Naquela sexta-feira decidimos viver a vida, acho que um pouco em cima da hora, mas ainda assim decisões são decisões. Acordamos cedo e nos encontramos para tomar café na padaria do Sid. Nunca achei que alguém pudesse tomar um simples café de forma tão estranha, ele me fez rir pela primeira vez no dia. A padaria estava cheia de pessoas estranhas como sempre, não que fossem esquisitas, eu apenas não compreendia a forma como levavam a vida. Ele disse que não eram estranhas, que apenas não sabiam quem eram; e por um momento fez sentido.
O primeiro passeio foi para o campo, lá onde ele brincava quando era uma criança, me contou cada história... Que até tive que me forçar a respirar pra não morrer de tantas risadas. Ele me ensinou o que fazer na casa do Seu Zé, e o que não fazer - nunca - na casa da Dona Giulia. Me mostrou que em certa parte do campo tinha uma linha bem forte no chão, aquele era o que separava o espaço dos meninos do das meninas.
Peguei a corda que levava na mochila e amarrei uma ponta num poste, ele batia a corda e cantava enquanto eu tentava não cair pondo a mão no chão e pulando como se fosse um arame farpado elétrico.
Subimos o morro e sentamos embaixo de uma árvore, conversamos sobre o universo, mas a conversa o deixou um pouco deprimido, então levantei e comecei uma aposta: Quem chegasse lá embaixo primeiro pagava o almoço.
Alugamos bicicletas, corremos que nem loucos, tocamos campainhas e corremos, fingimos ser viajantes do tempo, e então ele me levou para almoçar.
Almoçamos numa lanchonete, e a comida foi um grande hamburguer com uma lata de refrigerante. Todos nos olhavam como se fossemos crianças fazendo alguma arte, mas estávamos apenas tentando viver...
Às 14 horas ele me disse que já estava quase em hora de ir-se. Disse-me que voltaria, mas que agora teríamos que nos apressar. Refizemos nossas malas e voltamos para a rodoviária.
Era três horas da tarde de um sábado e foi apenas ao vê-lo andar em direção àquele ônibus que percebi o quanto me importava. Não corri, nem o abracei, nem gritei que o amava. Apenas sorri e acenei, como uma promessa de que o esperaria e quando voltasse, aí sim, eu diria o quanto me faz bem estar ao seu lado... E que deveríamos nos mudar para Neverland.
O ônibus saiu, e eu fiquei ali mais um pouco. O tempo ainda não passava normalmente... Sentei em qualquer canto e ali esperei. Às 15 horas de um sábado qualquer ele vai voltar como se foi, e então poderemos ser nós mesmos novamente, dessa vez, para o resto da vida.




