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14 de dez. de 2013

A carta

Antes de mais nada, gostaria de deixar aqui expressos meus mais profundos medos, angústias e sofrimentos. E gostaria de lhe deixar bem claro que, você nunca me conheceu e nunca me conhecerá. 

Conheci a verdadeira face da vida quando ainda era muito nova, conheci as dificuldades de estar viva quando ainda era uma criança. E nada daquilo me abateu por completo. A vida não é o tipo de veneno que mata em segundos, ela é do tipo que passa milhares de vezes por todo seu corpo fazendo com que cada célula se arrependa de existir até que a dor lhe consuma e você ceda... Então você não é mais um bom hospedeiro, e a vida é a última a lhe deixar. Mas ela lhe deixa. 
Conheci pessoas de todos os tipos; baixas, altas, gordas, magras, brancas, pretas, amarelas, carecas, cabeludas, estranhas, normais, quietas, agitadas, vingativas, vítimas, fortes, fracas, psicopatas, indiferentes... Conheci tipos o bastante para entender que todas são a mesma coisa. Todas tem o mesmo perfil, o mesmo esqueleto, os mesmos componentes foram calculadamente utilizados por um ser divino na criação do corpo humano. Até mesmo os deficientes o tinham a todos. 
Descobri, ainda adolescente, o efeito de cada droga. E também a consequência. O gosto de cada bebida, e também o que elas causavam a cada gole. 
De tudo que vivi e morri, não me arrependo de uma única coisa, apenas de ter um dia me apegado. 
Apeguei-me às pessoas, mesmo sabendo que era errado. E este é meu único arrependimento. 
Elas me deixaram, me esqueceram, fui descartado. Milhares de vezes, por milhares de motivos, eu nunca fui bom o suficiente. Elas me humilharam. Julgaram-me. Culparam-me. Fizeram de mim um ser desprezível e mentiroso. Um ser indiferente, arrogante, altivo, deslocado. E então voltaram para ver sua criação, não diferente de Frankstein, precisavam matar a coisa que criaram com sua própria ganância e boas intenções. 
E como a coisa, lá estava eu, pronto a perdoá-los... Chorando por suas mortes... 
Maldito eu, maldito o que me tornei. 
Vida, dinheiro, bebida, drogas, religião, nada disso foi o motivo de meu fim. Pessoas, elas foram o meu fundo do poço. Minha última gota. Meu último suspiro. E não por quem eram, mas por perceber que enquanto vivesse, também seria eu como todos os outros humanos. 
Agora provavelmente estarei em paz, como um espirito livre ou apenas uma lembrança vaga na mente de quem um dia me viu por algum dos meus muitos ângulos. Apenas agradeço... Que o veneno finalmente tenha chegado ao fim. 

4 comentários:

  1. "Nunca ser bom o suficiente" para as pessoas sempre nos levou a ser como qualquer um desses seres mundanos. E quando formos capazes de nos desapegar disso, Alice, ai sim, estaremos nos tornando pessoas especiais. Aquelas que vivem para si. E só.

    http://h-v-intage.blogspot.com.br/

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    1. Desapego, isso é importante! Viver para si, isto é mas importante ainda!
      Todos são pessoas importantes e especiais, cabe a nós decidirmos quando deixaremos que notem que não somos apenas mais um na multidão, certo?

      "viver, e não ter a vergonha de ser feliz..." como já diz a música :)

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  2. Ótimo texto! Já tive meus momentos de querer dar adeus ao mundo e viver trancafiada em mim mas percebi uma coisa: "Só quem tem o caos dentro de si pode dar a luz a uma estrela bailarina.", disse Nietzsche. E com ele aprendi que ordem demais não serve, somos seres excitados. Igual nossas células, elas precisam de um estímulo e dependendo dele ela decide se se contrai (medo, dor, sofrimento) ou se expande (alegria, felicidade...). Ele não gostava de dar nome a isso, achava melhor chamar de afetos. Essa ideia de que um sentimento tem que ter nome é babela. Sentimentos são apenas formas que dão aos afetos, o que importa mesmo é o que te faz expandir. Viver sem limites? Não, isso seria tentar fazer algo que não podemos. Assim como as células, temos uma membrana que é até onde vai nossa capacidade de expansão, temos que viver no nosso limite, pois só assim saberemos o limite do outro. E qual nosso limite? Correr em um shopping é ultrapassar as barreiras da sanidade? Não. Porque esse não é um limite nosso. Entende?
    Muitas pessoas recebem um estímulo negativo e se mantém contraídas por medo de viver. Por exemplo: você está com raiva, e isso te contrai tanto ao ponto de você não querer mais se dedicar para expansão. Era o que ocorria comigo. Eu achava que vivendo sem me entregar a ninguém seria uma vida fácil, pois não teria sofrimento. Estava enganada, e muito. Não podemos viver com medo da vida, precisamos de outros, precisamos dessa sinapse. Nietzsche diz que "os meus são aqueles que não temem à vida, são os fortes são os seres além dos outros seres são o topo da cadeia alimentar, não são aqueles que sentem auto-piedade e ficam se corroendo por formas passadas, não. Os meus são aqueles que sabem quebrar valores antigos, e se transformar a cada dia. O resto? Pouco me importa, o resto é só a humanidade."
    Mas enfim, seu texto me fez voltar ao passado, descarregou em mim grandes doses de nostalgia e me deixou feliz em saber que eu realmente consegui quebrar meus valores antigos e supera-lo.


    Abraços, Hannah.

    http://inexoraveisutopias.blogspot.com.br/

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    1. Escrevo coisas que inspirem as pessoas a sentirem algo, seja o que eu senti ou não. Fico feliz que tenha sentido algo ao ler este conto. E acho importante o que disse, aceitar-se e renovar-se é algo que todos deveriam fazer sempre. Aprender com os erros ao invés de tentar não errar. Estar aberto a novas ideias e novos ideais.
      Deve mesmo sentir-se feliz por ter conseguido quebrar seus antigos valores e criar algo que supere-os, isso é dádiva de poucos!

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